A excursão histórica do Grêmio em 1953/54: o mês em que o Imortal conquistou a América

Entre dezembro de 1953 e janeiro de 1954, o Grêmio realizou uma excursão histórica por México, Equador e Colômbia. Relembre jogos bastidores polêmicas

 

Jogadores do Grêmio antes da partida contra o Emelec no Equador

Um Grêmio além das fronteiras: a excursão internacional de 1953/54 e o nascimento de uma identidade copera

Entre o final de 1953 e o início de 1954, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense viveu uma das experiências internacionais mais significativas de sua história. Durante mais de um mês fora do Brasil, o clube excursionou por México, Equador e Colômbia, enfrentando equipes tradicionais e até seleções nacionais em um período no qual viagens internacionais eram raras, longas e repletas de desafios logísticos.

Mais do que resultados esportivos, a excursão representou um passo decisivo na afirmação do Grêmio como clube competitivo fora do país, contribuindo para a construção de uma identidade internacional que, décadas depois, se consolidaria no imaginário do torcedor tricolor.


O início da excursão e o desafio de jogar fora do Brasil

A jornada teve início em 13 de dezembro de 1953, com vitória sobre o Necaxa, no México, e se estendeu até o fim de janeiro de 1954, já em solo colombiano. À época, o futebol sul-americano ainda vivia de intercâmbios pontuais, e excursões prolongadas como essa eram encaradas quase como aventuras institucionais.

O Grêmio não apenas aceitou o desafio como se impôs tecnicamente em boa parte dos confrontos, chamando a atenção da imprensa local e de grandes públicos.


Domínio no México e partidas diante de grandes públicos

O México foi o principal palco da excursão. Em pouco mais de dez dias, o Grêmio disputou quatro partidas consecutivas, manteve-se invicto nesse período inicial e enfrentou adversários de peso, incluindo a Seleção Mexicana.

O ponto alto ocorreu em 27 de dezembro de 1953, um domingo, quando o Tricolor enfrentou o Deportivo Toluca, na Cidade do México, no Estádio Olímpico dos Insurgentes, diante de cerca de 60 mil torcedores — o maior público da excursão em território mexicano.

A expectativa era elevada. O Grêmio já acumulava bons resultados e começava a ser tratado como uma atração internacional.


Grêmio x Toluca: equilíbrio, drama e decisões controversas

Sob o comando de Telêmaco Frazão de Lima, nome histórico do clube, o Grêmio entrou em campo com uma formação experiente, mesclando jogadores consagrados e atletas que marcariam época.

O início foi de forte pressão mexicana. O zagueiro Pipoca e o goleiro Sérgio Moacyr foram decisivos nos primeiros minutos, segurando o ímpeto adversário, cenário agravado pela saída precoce do centroavante Victor, lesionado aos 20 minutos.

Com o passar do tempo, o jogo se equilibrou, muito em função da qualidade técnica de Noronha, recém-retornado ao clube após passagem destacada pelo São Paulo e integrante da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1950.

Aos 44 minutos do primeiro tempo, Noronha cobrou falta com precisão, encontrando Tesourinha, que marcou de cabeça e colocou o Grêmio em vantagem. O gol ocorreu pouco depois de um pênalti claro não assinalado, quando o goleiro Tello derrubou Camacho.


Segundo tempo intenso e um empate com sabor de frustração

Na etapa final, o Toluca promoveu alterações e intensificou a pressão. Um dos jogadores que entraram, Candia, acertou a trave aos 12 minutos e, no rebote, empatou a partida.

O Grêmio respondeu com mudanças próprias. Itamar, poupado inicialmente, substituiu Torres e recolocou o Tricolor em vantagem aos 25 minutos: 2 a 1.

Pouco depois, o goleiro Sérgio Moacyr se lesionou, obrigando a entrada de Wilson. Já aos 43 minutos, em cobrança de escanteio, Wilson saiu para socar a bola, mas sofreu carga clara do atacante Carus. A arbitragem nada marcou, a bola entrou e decretou o empate em 2 a 2, encerrando uma partida marcada por decisões controversas.


Nova polêmica e críticas à arbitragem no duelo contra o Atlante

Dias depois, nova controvérsia marcou a excursão. Na derrota por 1 a 0 para o Atlante, o presidente gremista Saturnino Vanzelotti foi público ao criticar a arbitragem.

Segundo o dirigente, o árbitro Gonzalez Palafox favoreceu os mexicanos e permitiu excesso de violência em campo, apesar da disponibilidade de árbitros ingleses para conduzir o confronto. Vanzelotti afirmou que o Grêmio sabia perder, mas não aceitava arbitragens parciais, evidenciando o clima de tensão vivido em alguns momentos da viagem.


Resultados da excursão internacional do Grêmio (1953/54)

Tour pelo México

13/12/1953 – Grêmio 4 x 0 Necaxa

16/12/1953 – Grêmio 2 x 1 CD Marte

20/12/1953 – Grêmio 3 x 3 Seleção do México

23/12/1953 – Grêmio 3 x 1 América

27/12/1953 – Grêmio 2 x 2 Toluca

30/12/1953 – Grêmio 0 x 1 Atlante

03/01/1954 – Grêmio 1 x 1 Tampico

10/01/1954 – Grêmio 0 x 0 Guadalajara

Amistosos no Equador

13/01/1954 – Grêmio 2 x 1 Emelec

17/01/1954 – Grêmio 2 x 1 Barcelona de Guayaquil

Torneio em Bogotá, Colômbia

24/01/1954 – Grêmio 1 x 5 Millonarios

27/01/1954 – Grêmio 0 x 0 Santa Fé

31/01/1954 – Grêmio 3 x 3 Rampla Juniors


Jogadores que representaram o Grêmio na excursão

Goleiros: Sérgio Moacyr, Wilson
Zagueiros: Altino, Nílson, Pipoca, Hugo Seelig
Médios: Roberto, Noronha, Mauro, Zé Ivo, Sarará
Atacantes: Tesourinha, Delém, Victor, Mujica, Alvim, Itamar, Camacho, Júlio Torres


Um legado que atravessou décadas

A excursão de 1953/54 foi muito mais do que uma sequência de amistosos. Representou um marco simbólico da internacionalização do Grêmio, em uma época em que poucos clubes brasileiros se aventuravam fora do país por períodos tão longos.

Entre arbitragens hostis, gramados desconhecidos e viagens exaustivas, o Imortal deixou sua marca na América do Norte e no norte da América do Sul. Foi nesse contexto, muito antes das grandes taças continentais, que o Grêmio começou a construir o DNA competitivo e copero que se tornaria uma de suas principais marcas ao longo da história.

🔵 Sobre o Acervo Grêmio Copero

Este conteúdo faz parte da restauração histórica do antigo site Grêmio Copero , preservando textos, registros e memórias do futebol tricolor que marcaram época na internet.

Hoje, o projeto segue vivo e ampliado através do Grêmio Copero Histórico , que é o sucessor oficial desta iniciativa e continua produzindo conteúdo atualizado, análises, história e cobertura completa do Grêmio.

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